hoje verbo hoje verso hoje verto hoje perto hoje certo hoje corto hoje corro hoje morro hoje

20091104

aDivinHo

Era um ser de espanto, clarividente, perspicaz e com aquela peculiar característica no olhar, como se daqueles olhos brotasse luz. Ele era tomado por adivinho pelos seus pares, não por qualquer atributo oracular, mas apenas por conseguir ver mais longe depois de cair a noite.
Esse homem, nos momentos de solidão, procurava compulsivamente a sua sombra. Pressentia-a, sentia-lhe o cheiro, quase que a ouvia e nunca, em toda a sua existência, o deixou de atormentar a dúvida de que ela sequer existisse, simplesmente porque não a via.


Jorge Molder : a interpretação dos sonhos .......... a:TóR

20091103

inCerteza

Jorge Molder : a interpretação dos sonhos

Pouco há mais volátil que um sonho, pela incerteza que encerra. Certo é que com Molder aprendi um certo olhar de fora para dentro e aprendi que me enganaria se negasse a capacidade de me imitar. E só de pensar que me falsearia se envergasse uma máscara, negava já a vontade ser, verdadeiramente.
É a clareza de se crer numa máscara como o verdadeiro reflexo de si.

p XcharrO

Há tempo para tudo, só não sabemos quando.
Isto que se segue é um auto-retrato, hipócrita e a propósito de mais uma identidade, por necessidade, confesso.
Apresento-me-vos Pedro Chicharro, o autóctone exilado em Fecebook e outras paragens de pastos encabrestados.
SEXO: Masculino
DATA DE NASCIMENTO: 1 de Abril de 1961
ACTIVIDADES: Muito pouca actividade. Aliás, a tendência é mesmo mexer-me cada vez menos. Bem que me esforço por combater esta inércia entrópica, fazer umas coisas assim... para a barriga crescer mais de vagar. Assim como se vai ao cinema ou se faz o Sudoku por via do emburrecimento ou do Alzheimer. Ah! A senilidade... aquela infância ao invés!...
INTERESSES: Não é que me queixe… Não, de modo nenhum! Só que muito pouco me interessa e isso, esse quase nada, nem sequer aqui vem a propósito. Portanto e para o que vos interessa, será mesmo nada. E até mesmo isso, não sei… Olhem que nada, o Nada mesmo, aquele grande NADA, esse pode ser muitíssimo interessante… para alguém, eventualmente. Para mim não.
MÚSICA FAVORITA: Nem a música! Já foi! Em tempos foi a favorita. Sim, eu ainda me lembro quando a música era mesmo a minha favorita e o mundo a rodar era melhor canção de todos os tempos… Ensurdeci. Completamente. E se querem que vos diga não me importo nada. Só de pensar naquilo que se é obrigado a ouvir… Ná!.. Está muito bem assim. Usa-se um aparelhito atrás da orelha e quando nos xingam a cabeça... clic! Que maravilha!...
PROGRAMAS DE TELEVISÃO FAVORITOS: Ná! Só se for no YouTube e daqueles… assim do tipo parvoeira. Aquilo que por lá se vê é a prova do que já suspeitava há algum tempo… O pessoal ensandeceu! Mas poucochinho que aquilo faz mal à vista.
FILMES FAVORITOS: Aí ‘tá bem! Mas dos calminhos. Gosto mesmo é daqueles do velhote. Nem chega a meio da primeira bobina… trau! É o sono dos justos.
LIVROS FAVORITOS: Não leio. Não sei ler. Escrever ainda vá lá… dá-se um jeito, agora ler!? Não percebo nada do que leio. Eu ainda tentei, mas nada. E eu que ás vezes estou escrever (assim como agora) e em parando para ler fico logo baralhado. É assim, quando escrevo é sempre a abrir e nem olho para trás. Não vá um tipo arrepender-se!...
CITAÇÕES FAVORITAS: «Fa’ t’abalhá, t’abalhá, t’abalhá, aqui p’a dent’da vá’! Ai eu! Ai eu!...» (anónimo)
SOBRE MIM: Assim? Escarrapachado aqui assim? Só para quem não percebe mesmo nada de nada!... E mais! Devem pensar que isto que aqui está é um embuste, uma patranha! Não?... Pensam que me dei ao trabalho de embarricar tretas e imposturas com o fito de mascarar o que quer que seja de verdadeiro, e que me arrisco de modo indigno e desrespeitoso a ofender a inteligência de quem muito remotamente possa ler esta intrujice como se fosse um retrato?... Claro que sim!! Isto aqui é a NET, não é?...Então!?... Agora, que seja MENTIRA!? Não. Isso não.

20090528

torrEsmos

O cronista da rádio dissertava sobre torresmos.
Na habitual incursão ao seu próprio quotidiano, o cronista da rádio tinha por arte a transformação da frivolidade em substância delirante que, em fluente eloquência, me deixava traçado um sorriso quase idiota, doce. E frequente era chegar ao riso em cada manhã, tanto mais claro fosse o espelho onde me revia. E o som do torresmo prometia…
Eu até queria rir. A sério… queria.
O som do torresmo fritava-me o cheiro da memória.
O cronista da rádio dissertava sobre torresmos e a imagem do velho de um só dente saltou por detrás dos olhos e… Sabes como gosto de torresmos?... É como gostar por sempre ter gostado, desde gaiato. A tua avó já não me deixa comê-los por causa da ‘atenção’, mas aqui na festa aproveito… e ainda estão quentes. Quando tinha a tua idade, era o almoço que levava para a escola. Um quarto de pão, dois os três torresmos e duas laranjas. Era à quinta e à sexta-feira o almoço que mais gostava. Era o que havia… E ainda gosto.
O cronista da rádio dissertava sobre torresmos e eu até queria rir… a sério que queria.

20090420

arRebatamento?...

Isso já não sei. Já esqueci!
Aqui só há o tempo a passar. O mesmo apascentar os dias à volta do redil onde se morre todas as noites, a esquecer.
Lembrar de esquecer todos os dias, à noite, para que assim saiba o que há para saber.
Só esquecendo se pode saber.
Saber, mais que imaginar.
Saber o espanto quando o tempo cessa. E o tempo cessa!

Não, não! Não é o silêncio que traz o espanto.
A brutal ausência de som! De certo modo é como se fosse esperada. O silvo fino que julguei ser o som do tempo a passar, fiel companhia do tímpano, quase imperceptível e que de repente se cala.
Impressiona, mas não se compara ao que mais espanta!

Não é a treva. Não, não é! Nem tal coisa existe.
Será antes o entendimento da luminosidade que se apaga num processo intemporal. Tal como o súbito cerrar de olhos onde o negro é afinal um lento pejar de cores, volutas que se modelam aos impulsos do nervo óptico. É como se as cores se degradem nos pigmentos que as compõem e sem que no entanto haja forma ou movimento. É como se revelasse um fundo vibrante composto por todos os tons, que se confundem e que se fundem no mesmo fundo. Incolor, denso... Imaterial.
Difícil será de imaginar, mas não tão intangível como aquele que nem ao espanto lembra!

Nem olfacto, nem palato, que ainda o tempo era cedo e já caíam, na pressa de esquecer por não haver lugar sequer para o tempo de lembrar. Há quem diga que se morre devagar, desde o primeiro choro. Estes, se assim não é, cedo começam a morrer por cedo se achar que se começa a fazer tarde.
Tarde ou nunca se saberá quantos sabores serão cheiro. E de ausência já nem lembra, de entre as outras que se vão.

Será o toque da pele que se vai num estranho vazio entranhado?
Não é tanto o pasmo de não haver tacto, pois nem sentido faz haver o que haja a tactear. Não é o deixar de ser a fronteira dos pés e o estremo de cada mão, nem a ausência da rigidez que finalmente se percebe em cada articulação. Nem a vertigem de quem já não tem horizonte nem ponto zero, de quem já não tem cabeça nem ondula respiração. De quem já não sente o sangue a correr.
Não há imaginação para além da implosão do corpo condensado no umbigo e este finalmente desvanecido.
Não! Não há maior espanto!
Nada maior que o fim da dor!
A dor!

Não há dor!
Não há o peso da dor! O que lentamente aprendermos a suportar no hábito de mais carregar.
Aprendemos tão bem a dor lenta, tão subtil e crescente, que mais não cremos que venha a ser dor. E em cada passo adiante será tomada dor nova como constante de mais uma prova, a refrega de vida na dor a domar. E tão subtil é a ilusão de que a dor é domada que nada se toma por afeição, nada se entende por mais, mas sim por menos. É neste vício de dor superada que mais se suporta, mais peso que se carrega apertando a curvatura que por dentro nos verga.
Não! Não imaginamos a ínfima parte do peso da dor que se carrega.

Imagem e desejo. Imaginar o sentido no tempo que cessa.
É recorrente a ideia de que, sem o peso da dor, só existe um sentido...
Ascensão.

20090111

daDAltonismo

Dadá!...
Cor dá... Cor dadá!
A cor dá.
Acordadár... Acordar.
O sonho dadá!
Acordar de olhos fechados, a dar no sonho!
A cor dada nos olhos fechados. Dadá!
Estou acordado de sonhos fechados. Fechachádos.
Os olhos fechados.
Estou acordado! Os olhos... A abrir os olhos... Os olhos na janela!

A janela. A dor nos olhos, fechados. A dor no pescoço. Abrir os olhos à janela em frente. E entre os olhos e a janela, a luz cega do dia. A dor atrás dos olhos, fechados. Esticar a dor do pescoço na cadeira, nas costas, a estalar as costas da cadeira. A dor nas costas. A luz do dia que se encerra nos olhos, esticados, num longo silvo fechado. Esticar e... esvaziar!...
Acordar de mãos frias que esfregam fundo, os olhos fechados ao sonho, na janela em frente.

Era o sonho!... Já não lembro o que dá cor à janela de luz branca.

Lá fora.
Janela que luz a cidade a nascente, aberta.
Luz a brisa quente dos sons da cidade branca,
caldo de rumores que se agitam em conversa de esquina,
o táxi que espera,
o guincho da grua ao longe
e que se chega ao barril que rola seco na calçada.

Quedo, frente à janela, quase nem me atrevo respirar. A guardar o torpor que se abre de fora, lá de fora, deixar entrar a cor da janela.
A luz aberta na memória dos timbres de todas as cidades, emoldurada aqui em frente.

Podia ser o sonho!... Talvez lembre a que soava a luz branca da janela.

Ali mesmo.
A janela que se rasga em tons de manhã, acordada.
O branco soprado em doces afagos,
a roupa que cheira a sol,
o lixo lavado de lixívia,
a pimenta guardada no fundo das adegas.
Uma gota de maresia no grito da gaivota
e as caixas de fruta.
Laivos de aromas que anunciam a velha loja dos sonhos de açúcar.

Permanecer assim. Aberto à janela em frente sem que mova um dedo, para que nada trema, nada quebre o fluido cristalino que revela a cor da janela.
A luz no pingo de tinta a cada canto da memória.

Podia ser qualquer coisa!... A luz que fere a carne, mais que fere os olhos, de frente.

A janela plana sem que importe a profundidade em que se recorta na parede. Pintada de memória, sem quadros, cortinas ou estantes de livros. Só parede e janela em frente, plana e plena de luz sem cor.
Branca.

Espero o momento de lembrar o que importa.
Ficar.
Importa ficar.
Lembrar que é tudo que importa.
O mais pequeno nada.
O ficar.
Aqui, frente à tela que adormece...
Lenta e sem cor.
A luz da janela que se abre ao sonho.

Lembrar o sonho?
O sonho era...
O sonho… não lembro o sonho...
A cor?...

A cor que luz na tela como janela por pintar.

20090110

sentir errado
fazer, dizer, comer, viver errado
sentir o cansaço do avesso, no tempo deitado
este é o caminho travesso
sentir errado de lado, no lado errado
cansado de ser adverso, na certeza de estar errado
este é o erro de ter certezas
este é o mundo escuro onde tudo se parece
aqui tudo parece luzir errado